20110520


Por vezes sinto que a palavra chave é cumplicidade. Aparentemente tão simples e efectivamente tão complicada!

Não há nada como sentir que existimos para além de nós próprios. Isso pode-se verificar, ainda agora, em plena campanha eleitoral, na forma como os políticos nos olham nos olhos enquanto nos tentam vender as suas ideias. Tudo em nome de uma certa cumplicidade. Fictícia, claro está. Mas ainda assim...

Eu gosto muito quando consigo ver nos outros mais que apenas os seus olhos. E normalmente não me escondo, também deixo que me perscrutem, também eu baixo as minhas defesas. Acredito que é isso que nos torna uns dos outros, gradualmente, lentamente, permitindo a descoberta mútua, aquela intersecção de vidas que contribui para o reconhecimento do "nós".

Marcou-me muito este ano um dia de reflexão de uma turma onde muitos, apesar de estarem juntos há 3 anos, se confessavam perfeitos desconhecidos. Eu sei que é impossível ligarmo-nos com todos aqueles com quem nos cruzamos ao longo da vida. Sei também que, mesmo de entre aqueles com quem nos cruzamos, estabelecemos diversos níveis de cumplicidade consoante os nossos gostos, as nossas disponibilidades, as nossas identidades. Mas sei também que isso decorre da nossa limitação enquanto pessoas, que sempre que isso acontece quem fica a perder somos sempre nós próprios, seja porque escolhemos não arriscar, seja por nos encolhemos na hora da verdade, seja porque nem sequer sabemos bem porquê.

Acredito muito que cada pessoa tem em si uma riqueza que quase sempre desconhece e que apenas espera a sua oportunidade para sair cá para fora. E que é nosso dever fazer com que isso aconteça.

Provavelmente é por causa disso que eu gosto tanto da maiêutica socrática.



Causou-me sempre alguma impressão o cuidado que as pessoas colocam no amor. Tratam-no como se fosse algo raro, a utilizar com toda a parcimónia, com medo que se gaste se for excessivamente utilizado. Por isso entretemo-nos todos a gastá-lo aos bocadinhos, pedacinho a pedacinho, para que nunca nos falte. Nem a ninguém. E de um forma clara e abusivamente exclusiva: este, deste tipo é para ti; aquele, de outro tipo, é para ele; oh! acabou.se por hoje. Volta amanhã que eu vou tentar repor os stocks, ok?

É caricatural, eu sei. Amar é algo de muito importante, implica muita responsabilidade, temos por isso que pensar muito bem em quem podemos amar, não é? Não, não é. Lamento, mas não é. Porque me hei-de limitar? Porque é mau amar muitas pessoas? Ter muitos amigos? Estarmos completamente apaixonados, embrenhados, envolvidos de corpo e alma, na vida? Se fecharmos os olhos e pensarmos em pessoas que amaram muito, quem vemos? Pessoas que valem a pena? Pessoas que viveram assim-assim? Pessoas que mudaram a vida de outras pessoas? Porque haveremos nós então de nos armarmos aos cágados?

Hoje (ainda) estou para aqui virado. Ainda bem!

S. Bernardo: "A medida do amor é amar sem medida."

20110518


Se há alturas em que me detesto profundamente é quando sou obsessivo. E sou-o com as coisas mais inúteis e estúpidas do mundo: um programazinho do computador que não funciona como eu gostaria, um qualquer objeto sem interesse nenhum que eu não me lembro onde coloquei, algum risquinho num dos meus equipamentos....

Fico fora de mim. Várias vezes. A primeira é quando me apercebo do que não funciona ou perdi. A segunda é quando me apercebo que estou a perder muito tempo com uma coisa que manifestamente não vale a pena. A terceira é quando isso não me sai da cabeça, por muito que eu me esforce.

Hoje, quando vinha para cá, a Belita dizia-me que eu tenho dupla personalidade, que quando me salta a tampa - ia escrever a trampa ;-) - me transformo. E eu acredito que ela apenas pecou por defeito: mais que duas personalidades, eu tenho para aí uma boa meia-dúzia, e qual delas a pior. às vezes dá-me vontade de fazer Ctrl+Alt+Del para reinstalar todo o software cá por dentro, limpinho de vírus, de lixo, e ficar como novo.

Mas não adianta. Deixa cá ver se resolvo isto antes que faça mais asneira.

20110517


Enquanto Moçambique não chega, combato o cansaço fazendo aquilo que normalmente faço quando se aproxima o fim de um qualquer ciclo: analiso o que fiz, revejo o que experimentei, revisito o que senti, para tentar perceber se este foi ou não um tempo desperdiçado.

Não são critérios muito rigorosos, aqueles que utilizo para estas avaliações. Tento perceber se cresci, se porventura sou mais do que era quando comecei: mais rico, mais humano, mais consciente das minhas limitações, mais próximo.
Sou benevolente comigo próprio.

Apercebo-me sem dificuldade que tenho mais olhos na minha vida, que reconheço mais pessoas quando se cruzam comigo, que me sorriem mais e que sabemos ambos porque sorrimos.
Tenho também mais vidas em mim, mais cumplicidades, mais preocupações quando não sei se estão bem, mais alegrias quando me certifico que a sua vida corre.
Tenho também mais de mim em mais pessoas, o que, porque não é de matemática que se trata, me multiplica em vez de me dividir. Porque tenho mais outros em mim, porque sou, eu próprio, mais outros, tenho mais Deus, uma fé mais vivida, mais adulta, mais madura.
Tenho também cada vez menos tempo, o que apenas pode ser bom. O Mestre Tempo ensinou-me que quando não cedo à tentação de o encerrar em mim, escolhe correr a meu favor.

Estes balanços - que eu faço quando me sinto mais cansado, mais inseguro - permitem-me perceber que, apesar das canseiras, apesar das discussões, apesar das imensas dúvidas e inexistentes certezas, apesar de me sentir muitas vezes pequenino, pequenino, tenho, afinal, muitos motivos para dar Graças. Pela minha família, pelos meus amigos, pelo meu trabalho, e pela minha fé, que a tudo isto dá sentido.

20110514


Uma boa notícia e outra péssima.

A boa é que isto volta a ser possível. Depois de dois dias em que pensava ter perdido os posts, o blogspot voltou a carburar. Perfeito! Creio que os blogues são, nesta altura, uma das mais importantes fontes de conhecimento. Claro que há muita palha, muita coisa que não interessa nem ao Menino Jesus, mas quem, como eu, já anda por estas bandas há alguns anos, já consegue distinguir o trigo do joio. E o facto é que desde a ciência, à religião, passando pela política, artes e informática, este é um meio fundamental para nos mantermos a par do que de melhor e pior se faz por esse mundo fora. E de alguns dos nossos amigos.

A péssima é que o Olhares de repente deixou de permitir copiar as suas fotos. Este blogue fica assim incomensuravelmente mais pobre. Foram muitas as vezes em que as fotos eram a única coisa que valia a pena nos posts. Creio até que para a maior parte das pessoas os textos são perfeitamente irrelevantes, porque apenas a mim me dizem respeito, porque estão mal escritos, porque espremidos não dizem nada... porque escrevo fundamentalmente para mim, para ordenar as minhas ideias e raramente penso em quem poderá ler isto. O que importa é que o Olhares é um amigo que visito diariamente e que me ajuda a ver o que me rodeia com outro olhos. Entendo perfeitamente que tenham impedido que se copiem as suas fotos. Tenho pena, é certo, mas tudo bem.

Terei agora que ver sem tocar ;-)

Nada a que não esteja habituado.

20110512


Os meus filhos e outra malta nova perguntam-me muitas vezes como é. Como é amar a mesma mulher há 26 anos, como é deitar e acordar todos os dias a seu lado, do que conversamos durante estes anos todos - ainda por cima quando trabalhamos no mesmo sítio - se ainda temos motivos de conversa ou se a nossa é já uma conversa acabada. Perguntam-me o que vi nela, como soube que era ela, como ainda sei que é ela, se não me arrependi, se não desejaria que tivesse sido diferente...

Aqui há uns tempos chamavam-nos "o casal-maravilha". Graças a Deus deixaram-se disso. Como eu detestava! O meu casamento é tudo menos pacífico. O nosso amor, esse é pacífico, mas o amor, por si só, nunca chegou para sustentar um casamento. A nossa vida em comum é muito feita de quotidiano, de dia-a-dia, de vida vivida, sem muitos floreados. É muito feita de conversa e mais conversa e mais conversa ainda, da capacidade de conversarmos sobre as mesmas coisas as vezes necessárias de forma a que, lentamente, pessoas tão diferentes como nós se possam ir encaixando à medida que os problemas surgem, que as dificuldades surgem, que as alegrias surgem.

As pessoas duvidam quando dizemos que nunca fizemos grandes planos, que nunca pensamos muito bem nas coisas, que fomos acolhendo aquilo que a vida, em cada momento, nos ia dando. Foi assim com os filhos, com os projectos, com os empregos, com as casas e os lugares onde fomos ganhando o nosso tempo. Creio que essa foi uma parte importante da nossa vida: não a balizamos excessivamente, não a encarceramos mas abrimos horizontes, ficamos atentos, alegramo-nos e entristecemo-nos consoante o que a vida nos ia proporcionando. Vivemos sempre nos limites, nos limites da paixão, nos limites da entrega, por vezes nos limites da ruptura, como apenas quem é casado percebe. Nunca fomos de meias tintas, de meios termos, de deixar correr o marfim para ver no que dá. Tudo o que fizemos de importante fizémo-lo juntos e intensamente. E quando adormecemos no pedaço, ou melhor, para ser justo; quando eu adormeci no pedaço e julguei ser apenas eu, quase quase deitava tudo a perder.

Porque um casamento  - a vida, toda ela - não é feito de grandes momentos. Não é feito de grandes discussões, grandes passeios, grande decisões, mudanças profundas. Num casamento, quando isso acontece resulta sempre de um caminho que muitas vezes é imperceptível e que apenas pode ser avaliado ao fim de alguns anos, quando olhamos para o que passou. Fundamental, mesmo, é que apesar das enormes dificuldades por que já passamos, apesar de algumas discussões bem feias, de alguns momentos em que a ruptura foi falada, sempre sentimos que o nosso nunca foi um caso de falta de amor. Pelo contrário: na base esteve sempre o desejo de passarmos mais tempo juntos, a falta que sentimos um do outro, a necessidade que temos de nos aconchegarmos um no outro. Nunca se tratou de pretensas infidelidades, de sonhos alheios à presença do outro, de vontade de viver uma vida separada.

Tem sido uma vida cheia, esta. Por causa dos filhos, por causa do trabalho, por causa da fé, por causa do nosso envolvimento de cabeça em mil e uma actividades, em mil e um projectos, temos tido tudo menos monotonia. E continuamos a aprender, hoje. A aprender a começar a viver mais para nós e menos para os filhos, a viver aquilo que completa o outro e que a mim nem me diz tanto, a apoiar-nos nos nossos sonhos, que finalmente ganham voz agora que os filhos já vão caminhando sozinhos.

Faz hoje 21 anos estava nervoso, muito nervoso, por volta desta hora. E com medo do futuro. Hoje, findo este tempo, estou absolutamente calmo, absolutamente grato, absolutamente esperançado que muito temos ainda que caminhar.

Juntos, com a Graça de Deus.

20110511


O meu mano novo acabou de me ligar: estava a chegar a Fátima, depois de ter saído daqui no passado domingo. Fiquei feliz, claro. Muito feliz.

Curiosamente, ele nunca foi dessas coisas: tem uma maneira muito própria de viver a sua fé, muito diferente da minha, que gosto sempre de ir bem fundo em todas as questões. Ele vive a fé com a naturalidade de quem respira, sem se questionar muito, sem se martirizar muito, até sem se comprometer muito. A sua fé faz parte da sua vida, está muito ligada ao nosso RH+, aos nossos amigos de muitos anos, que ele viu a crescer, que ele formou e de quem continua a ser o verdadeiro fundamento.

A nossa relação é muito fora do comum - toda a minha relação com os meus irmãos e os meus pais é muito fora do comum - muito feita de ausências de palavras, de respeito pelas enormes diferenças que nos unem, mas de um enorme, imenso amor que nos une. Não me lembro de alguma vez termos discutido forte e feio, de alguma vez nos termos zangado, de alguma vez não termos estado mal sentíssemos que o outro precisava. E foram enormes as provas de fogo a que fomos sujeitos enquanto irmãos, enquanto companheiros de infortúnio. E nunca em nós houve uma palavra de recriminação. Amamo-nos e respeitamo-nos justamente tal como somos: com os nossos imensos defeitos.

Para o bem e para o mal, sabemos ambos que nos amamos muito para além das palavras.
Sem nunca termos sentido a necessidade de o dizer.
Nem sequer de o ouvir.

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...