20110510



Gosto de passear pelo meu pensamento, de o deixar fluir à vontade, sem eira nem beira. Lembro-me muitas vezes de Mandela, quando afirmou que era dessa maneira que se libertava: o corpo estava aprisionado, mas o pensamento esse, era livre como um pomba. 

Aprendo muito nesses meus devaneios. Revisito pessoas, relembro situações, recordo aulas e matérias estudadas, e tudo funciona como uma daquelas máquinas misturadoras: meto tudo no mesmo saco e de repente apercebo-me que tudo está ligado: pessoas, conhecimentos, situações, aprendizagens, tudo faz parte do mesmo, tudo tem como que um fio condutor, tudo se encaixa como as peças de um lego que me entretenho a construir.

Não me sento a meditar, no silêncio e no escuro, à espera que estes passeios surjam. Nada disso. Acontecem muito de manhã, noutras alturas durante as minhas caminhadas, noutras ainda apesar de estar rodeado de pessoas. É como uma válvula de escape: faço as minhas sínteses, mato as minhas saudades e organizo o meu interior.

É esquisito, eu sei. Mas nunca me preocupei muito com a normalidade. Vantagem de gaguejar.

20110509

Já passei por alguns momentos bem difíceis, na minha vida. Alturas em que andei completamente desnorteado, sem saber o que fazer, com quem fazer, desvalorizando tudo e todos, ignorando tudo e todos, num processo auto-destrutivo que quase mudava a minha vida para sempre. Essas alturas foram sempre consequência de decisões que tomei quando estava inebriado de mim próprio, do meu pretenso sucesso, da minha total e completa cegueira acerca de mim próprio. Nessas alturas, Graças a Deus,  não me faltaram grilos falantes que me iam alertando ininterruptamente para o quanto estava errado nas minhas opções e na escolha do caminho a seguir. Em vão. Completamente cheio de mim, avançava até bater, estrondosamente, com a cabeça na parede. A minha sorte é que as mesmíssimas pessoas que antes me avisavam, continuavam lá para me levantar.

Aprendi da forma mais dura que ficar cheio de mim é o meu maior perigo, o caminho mais curto para fazer asneira. E da grossa. Por isso fico sempre assustado quando alguém me dá demasiado valor. Eu, que sei bem do que a casa gasta, que sei bem que não tenho a consistência que deveria e desejaria ter, olho para todos os lados e pergunto-me onde estarei a falhar desta vez. Tento depois jogar mais à defesa: falar menos, andar pela sombra, arrefecer os ânimos, gerir as coisas até que tudo volte ao normal e eu possa ir recuperando, lentamente, o lugar que eu sinto como meu, no lado menos visível do mundo. Por isso tento rir-me de mim próprio, não me levar muito a sério, questionar-me, voltar a questionar-me e questionar-me de novo e, sobretudo, encontrar nos outros o meu próprio caminho, ver neles exemplo, dons que nunca terei, capacidades que estão a léguas das minhas.

O melhor de tudo é que isto permite-me descobrir pessoas absolutamente espantosas, umas mais novas, outras menos, que me dão, todos os dias, razões para me sentir pequenino e sentir que tenho ainda muito para caminhar. Enquanto assim for, sei que pelo menos estarei a salvo de mim próprio.

20110507


Tivemos, ontem, um jantar maravilha. Estávamos quase todos, o ambiente era espectacular, e não fosse o nosso aspecto limpinho, diria que ainda estávamos em Santiago.

Creio que posso afirmar que não foi apenas para mim que o Caminho, ou melhor, que Este Caminho foi muito especial. Porque ninguém sabia ao certo ao que ia, porque éramos "inocentes" na partida, porque nem sequer nos conhecíamos assim tão bem - e portanto não tínhamos expectativas, ou se as tínhamos, eram mais para o baixo - porque no fundo temíamos todos que a coisa não corresse bem... sei lá, mil e um motivos que nos deixavam um tanto ou quanto de pé atrás.

Curiosamente, agora que penso em cada um dos que caminharam, não aconteceu aqui aquilo que eu já disse que aconteceu com Moçambique: aqui havia meia dúzia de pessoas que à partida nem sequer pensaria em convidar. Acredito que uma parte importante do sucesso da caminhada esteve justamente aí: cada passo, cada km, cada dia, revelava-nos, para além de situações novas, pessoas novas, com facetas que nos surpreendiam a cada momento e que agora guardamos cuidadosamente para que as não possamos esquecer.

Foi muito bom, ontem. Foi bom confirmar que nos continuamos a sentir muito bem uns com os outros, foi bom sentir que estávamos todos na mesma onda, que todos tínhamos saudades, que todos gostaríamos de estar ainda lá, no Caminho. Quando participo nestas coisas normalmente fico só com a minha saudade ao fim de alguns dias. A vida vem e toma conta da nossa vida obrigando-nos a remeter as tas coisas boas para o fundo do baú das recordações. Desta vez, porém, pelo menos não me sinto só. Ainda nos olhamos uns aos outros com saudade. Ainda nos reconhecemos nos olhos uns dos outros. E ainda sentimos um gozo enorme em estar juntos, em abraçarmo-nos para celebrarmos, juntos, a sorte de nos termos.

Obrigado, Pai, por ainda não me sentir só no Caminho.

20110506

Escrevo... apago. Reescrevo... volto a apagar. Procuro... não encontro.

Hoje não sai nada em condições. 

Por um lado, foi uma semana muito longa, muito dura, com muita coisa a tratar e muito pouco tempo para o fazer. Foi também uma semana repleta de noites (muito) mal dormidas, à espera que a Catarina chegasse a casa. Acresce ainda que foi uma semana de ressaca pois nas que a antecederam tive Santiago e a Irlanda. No sábado tive RAIZ aqui no Colégio... no domingo a festa do Ica e da Rita...E esta semana foi recuperação de trabalho, de estudo, reuniões e mais reuniões.... à noite tive terço e o jornal...

Enfim...

Chego ao fim desta semana de trabalho com a clara sensação que não posso com uma gata pelo rabo. 

Completamente esgotado, física e mentalmente! 

Daqui a pouco começarei a descontrair num belo dum jantar com uma bela duma companhia recordando um belo dum Caminho. 

Hmmmm! Já me cheia a Fim-de-Semana!

20110504



«No fracasso, há algo dentro de mim que se destrói. Destrói-se aquilo onde depositei as minhas esperanças. O importante, numa situação tão crítica como essa, é que eu próprio não seja destruído (…) No entanto, se entender esta situação como algo que se rompeu em mim para que o meu verdadeiro núcleo se manifeste de forma mais clara, poder-me-ei reconciliar com o fracasso. Nesse caso, isso não me rouba a minha dignidade e também não me oprime».

O livro das respostas, Anselm Grün, (Paulinas, Lisboa, 2008).

Não há coincidências. Por isso achei interessante ter lido hoje este pequeno excerto num dos muitos blogues que acompanho diariamente. 

Ontem, numa das cada vez melhores sessões de formação para Moçambique, falamos de pontes, de projectos, de caminhos, e, fundamentalmente, de encontros e desencontros. Uma das palavras que recortei foi justamente fracasso. Porque conheço bem o seu sabor, porque conheço bem o seu poder destrutivo, mas também porque sei bem como nos pode alicerçar na vida se tivermos quem nos faça sentir amados. Apesar de tudo.

Foi muito bom, ontem. Pela primeira vez abordamos o tema da fé, rezamos juntos, começamos a destapar-nos, a  baixar as defesas, a construir uma intimidade comum a todos. Isso será fundamental quando estivermos longe dos lugares e das pessoas onde nos refugiamos habitualmente, quando a saudade apertar, quando o cansaço incomodar verdadeiramente a ponto de criar mossas.

Ainda ontem dizia que se eu tivesse podido escolher com quem queira ir a Moçambique teria escolhido justamente aqueles. Gostaria de ter mais alguém - sinto a falta do Manel - mas não gostaria de abdicar de quem quer que seja. Acredito que irá ser uma grande aventura para todos nós, uma daquelas experiências que nos deixarão uma marca indelével. Para o melhor e para o pior.

Acredito que, com o grupo que temos, tudo correrá pelo melhor.

Já falta pouco!!!!


20110503



Todos acompanhamos ontem as notícias acerca da morte de Bin Laden, a alegria que foi para uns, a histeria que foi para outros, o medo de eventuais represálias, e tudo aquilo que irá alimentar os media até à próxima notícia bombástica.

Curiosamente, no dia anterior, acontecera mais ou menos a mesma coisa mas no pólo oposto da vida: concentraram-se milhares de pessoas na Praça de São Pedro para celebrarem juntos a beatificação do Papa João Paulo II.

Dei comigo a pensar de como por vezes me esqueço do poder dos indivíduos. Talvez porque dê tanto valor ao que é feito em grupo, em comunidade, tendo a esquecer-me que nada se faz sem que alguém, na maior parte das vezes na solidão da sua individualidade, dê o primeiro passo. E de como esse passo pode ser decisivo para tanta gente.

Tanto Bin Laden como João Paulo II eram homens religiosos. Ambos viviam em função da sua fé, ambos a professavam com igual fervor e tenacidade, ambos possuíam um carisma tal que arrastavam multidões. Por causa da sua personalidade, ambos mudaram o mundo de forma radical. Efectivamente, depois deles o mundo nunca mais foi o mesmo.

Contudo, esta aparente semelhança entre ambos é profundamente enganadora: um derrubou muros, o outro ergueu-os; um viveu em função da vida, o outro estabeleceu uma cultura de morte; um semeou a paz, o outro, escolheu a guerra. Não podiam estar mais longe um do outro!

Acredito que o que nos distingue uns dos outros enquanto pessoas são as pequenas decisões quotidianas que vamos tomando ao longo da vida. Acredito que o mais importante da vida não acontece nos grandes momentos mas todos os dias, a cada momento de cada dia, quando tomamos decisões aparentemente insignificantes, quando escolhemos direcções que, no seu início, fazem parte do mesmo caminho. O que por vezes esquecemos é que as nossas decisões, por pequenas e individuais que sejam, têm sempre alguma repercussão em quem nos rodeia. Vivemos num sistema de vasos comunicantes onde nada, absolutamente nada de nós, fica apenas em nós.

Cabe-nos a responsabilidade de escolhermos, a cada momento, o que queremos que transborde da nossa vida.

20110501


Não é que eu não tivesse gostado dele. Nem sequer que eu ache que não mereça ser santo. Nada disso. Mas desagrada-me sempre o culto da personalidade, qualquer que ela seja.

Estava em Santiago no Domingo de Ramos. Quem celebrou a Eucaristia do Peregrino foi, creio eu, um cardeal ou um bispo lá do sítio. Durante a procissão que antecedeu a eucaristia, ele era quem levava a palma maior, mais bonito, mais cuidadosamente trabalhada. Não consegui deixar de pensar que, como testemunho do que é Jesus, era um pobre exemplo para nós cristãos.

Eu sei que é perfeitamente utópico pensar que alguma vez os bispos, os padres, ou até nós, leigos. alguma vez teremos a coragem de assumir na prática o serviço de Jesus. Que nos deixaremos de rococós sempre que o Bispo vem à paróquia, que sejamos simples como todos os dias somos simples quando o pároco vem jantar a nossa casa, e nos deixemos de colocar as pessoas num pedestal. Eu sei que isso nos está entranhado, que fazemos o mesmo sempre que recebemos visitas especiais lá em casa, que também pomos a toalha das festas, o serviço das festas e até, muitas vezes, o sorriso artificial das festas. Eu sei porque eu também, apesar de tudo, sou assim. Mas sinto sempre isso não como algo a preservar ou a vangloriar mas como uma falha, como algo que seria bem melhor que não acontecesse.

Quando algo deste género acontece a nível da hierarquia superior da Igreja, então, sinto que temos todos um longo caminho a percorrer. Porque me parece que favorece a fezada e não a fé, porque me parece tudo muito artificial, para televisão ver, muito mão no peito, muito arrebatamento, muita lágrima fácil, muito tudo aquilo que Jesus não foi.

Não é que não tivesse gostado de João Paulo II. Particularmente na fase final da sua vida, testemunhou com a sua velhice que os velhos têm um lugar importante entre nós e que essas coisas da dignidade da eutanásia e afins não passam de estupidez pegada. Não duvido que ele mereça ser santo. Duvido é da utilidade de uns (pretensos) milagres para que o possa ser, duvido do espectáculo, duvido das manifestações de fé que exigem simplesmente a ausência de qualquer racionalidade.

Para choque de muitas pessoas, continuo a dizer que, em matéria de santidade e exemplo de vida, recordarei muito mais rapidamente algumas pessoas, pequeninas e anónimas aos olhos do mundo, mas absolutamente fundamentais para que, apesar do que ainda sou, seja hoje muito melhor do que seria se não as tivesse conhecido.

E essa, creio, é a verdadeira configuração com Cristo.

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...